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Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

 

por Gilberto Brito

 

Após mandacaru "fulorá'" e asa branca retornar ao seu céu, despertada pelas "...três noites que pro norte relampêa", eis que para a fazenda Caiçara, no Exu pernambucano, uma "Sá Marica Partêra" foi "buscada" para "fazê" o parto de Ana Batista de Jesus (Mãe Santana), ocorrido no raiar de iluminado 13 de dezembro de 1912. Verificado o novo "son", o pai, safoneiro Januário José dos Santos, aliviado da angustiante expectativa, gritou: "macho ou fêma, Sá Marica"? Que sem pestanejar, respondeu: "um cabra macho arretado, que já nasce cantano, Seu Januáro".

 
Um mês após, o batismo. O vigário da paróquia, autoridade regional, sentenciou: "o nome é Luiz, porque nascido no dia de Santa Luzia". Januário acolheu, e em homenagem ao santo Luiz Gonzaga, acresceu Gonzaga, além de Nascimento, por ser dezembro, consagrado ao Natal do Menino Jesus.
 
E foi crescendo Luiz, menino da roça, de mãos na enxada, além de olhos e ouvidos nas safonas consertadas e tocadas por Januário, que além de lavrar a terra, entre um sábado e outro "rasgava o fole" nos "arrasta pé" das cercanias, mais tarde acompanhado pelo filho, vocacionado para o atrativo, e que aos 8 anos já substitui um sanfoneiro tradicional em um baile na roça, pelo que recebeu vinte mil réis de cachê, sem perder as "espiadas nos rabo de saia" que dava e era retribuído, uma vez que "toda menina que injoa da buneca é sinal que o amor já chegou no coração".
 
E assim passa "o tempo rolando, vai dia e vem dia", até que aos 16 anos "sai da roça e vai morar na cidade de Exu", indo estudar no grupo de escoteiros de um sargento da polícia do Rio de Janeiro, chamado Aprígio, para aos 18 anos se apaixonar por Nazarena, para quem recitpu: "vem cá cintura fina, cintura de pilão...vem cá meu coração".
 
Uma vez deflagrado, o namorico às escondidas foi interrompido, quando o "pai da minina", Coronel Raimundo Deolindo, rico e poderoso, bradou: "não pode minha fia namorá um cabra que não tem onde caí duro".
 
Isto feriu os brios do iniciado sanfoneiro e cantador, dono de uma "oito baixo", que em plena feira livre tomou "uma talagada de pinga", muniu-se com uma "peixeira enfiada na cintura" e foi "tirá satisfação" com o poderoso coronel. Os insultos tomaram proporções, a ponto de o ofendido se dirigir à barraca de Mãe Santana, vendedora de corda, e afirmar: "....outro disrespeito desse, pode acabá ni sangue".
 
Estarrecida e descontrolada com a situação, mais tarde, já em casa, ela narrou o acontecido a Januaro; chamou Luiz ao quarto, desferindo-lhe severa "tunga", o bastante para, na madrugada seguinte, o jovem, carregando a sanfona, ganhar o destino do Crato, no Cerá, onde vendeu a "oito baixo" e, de trem, seguiu para Fortaleza. Lá, se inscreveu no Exército, para o que aumentou a idade para 21 anos, isto para dispensar a permissão do pai, até ser descoberto por Januário, a quem se desculpou pelo sumiço e deu certa quantia em dinheiro, conhecedor da realidade sertaneja.
 
Após servir no Ceará, Paraíba, Piauí e Mato Grosso, o soldado Nascimento chega em Juiz de Fora-Mg e passa a ser o corneteiro "Bico de Aço", caminho para evoluir no "fole", a ponto de aprender, com o colega Domingos Ambrósio, "a rasgá uma 120 baixo". Daí foi transferido para o Rio de Janeiro, quando contava 8 anos de exército, vindo a saber que seria dispensado no ano seguinte, impulsionado por um decreto que proibia para os soldados um engajamento superior a dez anos. Isto foi bastante para comprar "uma acordeon" e passar a tocar boleros, tangos e valsas nos bordéis e botequins do bairro do Mangue, e ao final correr o pires e "ganhá um dinhero".
 
Numa das noitadas, cearenses frequentadores assíduos e ocupantes da mesma mesa, disseram-lhe: " você canta bem! Mas por que não canta umas coisas da nossa terra? deixo o tango pra lá. Dá próxima vez, se não tocar músicas nordestinas, não vai ter dinheiro no pires". Foi quando Luiz compôs Pé de Serra e Vira e Mexe. Com esta, foi vencedor do programa de calouros de Ary Barroso, até ser contratado pela Rádio Nacional, passo importante para firmar parcerias com Humberto Teixeira e Zé Dantas, com os quais construiu verdadeiras preces sertanejas, a exemplo de Asa Branca, com Teixeira, e A Volta da Asa Branca, com Dantas, sem esquecer de A Triste Partida, composição de Patativa, o mais humanista poeta brasilleiro.
 
Depois de muito acontecido, ainda no Rio de Janeiro, em 1946 recebe a visita da Mãe Santana, o que lhe faz retornar à terra de origem, consolidando, em definitivo, como a voz redentora do sertão nordestino, a partir de quando a mídia avança, até a consolidação da TV brasileira, e Luiz se cristaliza como o Rei do Baião.

Transcorrido meio século de sucesso, em 12/08/1989, Luiz, qual "Asa Branca foi-se embora, bateu asa do seu sertão", rumando-se para a vida eterna, quando "Deus do Céu se levantou e, sorrindo, decretou: feriado celestial! ... Criou-se uma comissão dos Santos mais festejados ...incluindo os mais brilhantes e os anjos representantes do agreste e do sertão...e numa cruzada de amores, o céu cobriu-se de flores, saudando O Rei do Baião...". (Aldemar Paiva).
 
* Gilberto Brito é ex-deputado estadual

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