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Lei Seca: com cerco apertado, os motoristas mudam de hábito

Lei Seca: com cerco apertado, os motoristas mudam de hábito

 

Pensar em chamar um táxi na ida a um bar ou volta para casa pode até parecer desconfortável para quem não está acostumado. No entanto, a mudança de hábito “previne” multas em eventuais blitze (leia mais nas páginas 11 e 12). Ida e volta em bandeira 2 (durante a noite), por exemplo, entre a região da Getúlio Vargas/ Praça Portugal e Jardim Higienópolis, áreas repletas de bares, sai na faixa estimada de R$ 40,00.

 

Trocar o meio de transporte, ou eleger outra pessoa, da família ou entre o grupo de amigos, para dirigir na volta para casa não é o fim do mundo. É o que garante o cirurgião-dentista Rafael Pinelli Enriques. Apreciador de vinhos, costuma participar de degustações ao lado da esposa Paola. Com a tolerância zero para consumo de álcool entre condutores, ele se adaptou.

 

Desde janeiro, quando entrou em vigor a resolução 432 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) que estabelece multa de R$ 1.915,40 para motoristas que tenham bebido quantidade inferior até mesmo a um copo de cerveja, Pinelli é um dos que mudaram a rotina de transporte para não abandonar o hábito de degustar um bom cabernet. “Começamos a adotar o revezamento ao volante em janeiro”, revela.

 

Seja com a escolha de quem dirige ou opção por táxi, o mais importante, observa, é não deixar de participar das degustações, mas de acordo com a lei. “Apoio a tolerância zero e torço para que seja mantida a legislação desta forma”, aprova.

 

De acordo com a nova norma do Contran, 0,01 miligrama de álcool para cada litro de ar expelido pelos pulmões no teste do bafômetro já implicaria em infração. Contudo, na prática a caneta entraria em ação mesmo a partir de 0,05 mg/l. Nada além do que menos de um copo de cerveja.

 

A referência, de acordo com a norma, explica-se pela margem de erro observada nos aparelhos. Em caso de exame de sangue, não é tolerada qualquer parcela de álcool no organismo. Se o bafômetro acusar taxa a partir de 0,34 mg/l, a infração é criminal, com prisão do condutor.


Mais bandeiradas

Entre os taxistas, principalmente aqueles que trabalham durante a noite, a medida é mais que bem-vinda. “Os próprios bares chamam ou os nossos clientes habituais deixam agendado”, salienta o taxista Marcelo de Carvalho, que além de transportar passageiros alegrinhos, também já prestou outro tipo de auxílio a quem não tinha condições sequer de entrar em casa, quanto mais dirigir. “Ajudamos até a tirar os sapatos”, brinca.

 

Para o colega Ubirajara Batara, a lei favorece a categoria e evita acidentes. No entanto, ele duvida que a tolerância zero realmente vá “pegar”. “Se mantiver a fiscalização, é muito benéfico. Já vi muita tragédia causada por bebida na estrada. Álcool nunca combina com volante.

 

Pegou pesado

Nem táxi, ônibus ou caronas com “motorista da rodada”. Para o advogado Gilberto Nunes da Cunha Filho, a situação requer medida extrema. “Vou a pé ao bar. A campanha realmente é séria. Pena que todos pagam por aqueles que exageram”, considera.

 

Para ele, apesar da lei ter fundamento, também evidencia a disparidade entre normas que “pegam” e outras que não. “No Brasil, há tratamento de choque para certos assuntos, mas nem todos”, observa.

 

A norma brasileira é rígida até em comparação a outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a tolerância é de 0,8 g/l. Na Europa, são tolerados até 0,5 g/l. “É possível beber uma caneca considerável de cerveja”, compara o engenheiro Sinibaldo Gerbasi, bauruense radicado na Inglaterra. “A tolerância é maior lá. No entanto, se o cidadão faz algo errado, é punido”, descreve.

 

Uma hora o ‘anjo’ falha

A sensação é enganosa, mas o álcool deixa as pessoas mais ‘corajosas’ e confiantes. Para encarar o trânsito, não é diferente. Não é raro alguém se sentir o Ayrton Senna após alguns goles. Ultrapassagens mais arrojadas, pé mais pesado no acelerador. Para muita gente, o álcool nunca foi “problema”. Mesmo escapando, às vezes sem saber, por um triz. Para outros, sem tanta sorte, o saldo é negativo.

 

Para quem escapou, resta o aprendizado. Uma hora destas, o “anjo” tira férias e ninguém fica para contar a história. “Certa noite, fechei um dos olhos dirigindo na estrada, porque via tudo duplicado à minha frente após beber muito e deixar um amigo em casa. Nunca mais faço isso”, arrepende-se. “Coloquei minha cabeça a prêmio e arrisquei a vida de outras pessoas”, confessa um motorista de 30 anos, que não quer se identificar.

 

Neste caso, a possibilidade de uma tragédia, que não aconteceu, já bastou. Mas teve gente que sentiu na pele (ou causou) os estragos causados pela combinação álcool x direção.

 

Casos recentes em Bauru mostram os efeitos, tanto da bebida no desempenho dos condutores, quanto da própria lei, turbinada desde janeiro.

 

No final de semana passado, dois homens foram detidos pela Polícia Militar após reprovação no bafômetro. No caso mais grave, um motorista de 48 anos atropelou um ciclista na praça Portugal e fugiu sem prestar socorro à vítima.

 

Na fuga, o acusado ainda bateu em outros dois veículos, parando apenas ao cair numa ribanceira, alcançada depois que o carro bateu num poste. Preso, o motorista teve atribuída fiança superior a R$ 2 mil.

 

No mesmo dia, um homem de 39 anos foi surpreendido por policiais no cruzamento entre a rua Marcondes Salgado e a avenida Nações Unidas. Com índice de 56 miligramas de álcool por litro de ar expelido, foi detido e somente saiu mediante pagamento da fiança de R$ 678,00.

 

Álcool na direção, atraso de reação

Depois do estágio de euforia, vem a moleza. Inevitavelmente, o cansaço é parceiro da bebedeira. Aliados, causam um efeito devastador nos reflexos de quem ainda se atreve a dirigir após ingerir bebidas alcoólicas. Uma pessoa sadia, bem alimentada, descansada e, obviamente, sóbria, demanda três segundos para reagir a um imprevisto à frente, no momento em que dirige.

 

Caso não preencha algum destes requisitos, observa o psicólogo Ilton Sant’Anna, instrutor de trânsito e autor do livro “Cartilha Brasileira de Trânsito” (164 páginas/Cana 6 Editora), o tempo médio já aumenta. Quando alcoolizado, acentua o especialista, a lerdeza é multiplicada por três.

 

“Levamos três quartos de segundo somente para identificarmos uma situação”, descreve. “Com álcool no organismo, aliado ao cansaço, leva-se até dois segundos e meio apenas para ver e entender o que se passa ao volante. Ao todo, são seis segundos até uma reação, alerta. “A 100 quilômetros por hora, neste tempo, o motorista roda 200 metros. Dá para fazer um estrago grande”, enfatiza o instrutor.

 

O tempo de reação, observa Sant’Anna é irrelevante ao estado de atenção do motorista. Ou seja, trata-se de ação involuntária. “Não é reação motora que fica afetada, mas a interpretação do perigo”, diferencia.

 

Daí também que se traduz a “maior coragem” ou arrojo de motoristas que, sem beber, ficam mais cautelosos, ao ponto que, depois de algumas doses, se mostram mais desprendidos e, consequentemente, dispostos a correr riscos. “O álcool afeta nossa censura para falar ou tomar certas atitudes. Isto também vale para a noção do perigo”, relaciona.

 

O discernimento, observa o médico psiquiatra Evandro Borgo, é um dos primeiros “freios” danificados no cérebro a partir do momento em que se começa a beber. “O álcool inibe o sistema nervoso central, principalmente a crítica. Daí a falsa impressão de que se é mais capaz, quando o indivíduo se aventura no campo amoroso ou fala o que não deve”, exemplifica.

 

O médico apoia a lei. Apesar de muitos protestos, embasados principalmente nas diferenças de tolerância entre os organismos acerca do efeito alcoólico, a tese é, justamente, o que embasa a legislação, acredita o psiquiatra.

 

“Serve para todos. Não existem limites seguros”, conceitua. “A medida é interessante, mesmo porque a sociedade está muito descuidada. Aliás, não é uma questão relacionada apenas ao trânsito, mas de saúde pública, sentencia Borgo.

 

Mobilização fará teste com motoristas

O alerta sobre os efeitos do álcool em quem dirige ganhará um reforço em Bauru. Uma mobilização organizada pelo Clube de Carro Antigo do Centro Oeste Paulista, Lions Centro, 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPMI) e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) contará com bafômetro, voluntários e profissionais de autoescola.

Quem se dispor a participar, fará o teste completamente sóbrio e conduzirá um veículo entre cones, em uma espécie de teste.

Depois, consumirá uma lata de cerveja, repetirá o exame do etilômetro em 15 minutos e, novamente, pegará a direção nas mesmas circunstâncias - desviando de cones.

“No máximo, cada voluntário tomará duas latas de cerveja. É sabido que esse efeito alcoólico só desaparece após seis a oito horas de ingestão”, comenta o oftalmologista José Carlos Tosi, que preside tanto o Clube Carro Antigo, quanto o Lions Centro.

De acordo com ele, já foi feito um pré-teste com os organizadores do evento. Na oportunidade, ficou certo que até a pouca ingestão de bebidas alcóolicas tem efeitos sobre a direção. Ainda segundo Tosi, a mobilização ainda não conta com data nem local definidos. (Luciana La Fortezza)

 

Bar oferece ‘motorista de aluguel’

Em Bauru, além dos notívagos de plantão que se revezam, no chamado “motorista da rodada” ou optam por outros meios para voltar para casa, a pé ou de táxi, já há estabelecimento comercial que dispõe do serviço de “motorista de aluguel” para os clientes.

É o caso do Jeribá Bar que, desde o Carnaval, além de disponibilizar táxi para a freguesia, ainda dispõe de uma pessoa para levar o carro de quem estava bem para chegar, mas nem tanto, para sair.

“A multa para quem é flagrado dirigindo sob efeito de álcool está na casa dos R$ 2 mil. No caso, aqui a pessoa desembolsa o valor da corrida, mais R$ 20. Compensa”, incentiva a comerciante Paula Della Barba Pereira”, proprietária do estabelecimento. “É uma lei radical”, considera. “Mas acho que veio para ficar e o pessoal não deve esperar uma multa para tomar uma atitude”, observa.

 

Testamos: uma coragem enganosa

Beber nos deixa mais confiantes. A afirmação, por mais politicamente correta que pareça, é verdadeira. Nos tornamos mais desinibidos e, consequentemente, nos sentimos com maior habilidade para lidar com as situações, incluindo encarar o trânsito. Aí é que mora o perigo.

 

Na última semana, com o auxílio da Polícia Militar e da Prefeitura de Bauru, que cedeu o Sambódromo Municipal, testamos alguns dos efeitos do consumo de álcool conjugado ao volante. Assistida integralmente pela PM, com a pista demarcada por cones montada na “passarela do Carnaval”, quem sambou, literalmente, foi o “piloto” de ocasião.

 

Um litro e meio de cerveja, atesta o etilômetro, corresponderam a 0,41 miligramas de álcool por litro de ar expelido.

 

Na rua, em qualquer blitz, é sinônimo de, no mínimo, uma visita ao delegado, enfatiza o tenente José Sérgio de Souza, comandante do pelotão de trânsito da Polícia Militar em Bauru. “De 0,05 miligramas a 0,33, é caracterizada infração, com multa de R$ 1.915,00”, adverte o oficial. “A partir daí, a recomendação é para condução ao distrito policial, dependendo da avaliação do delegado”, detalha.

 

Antes de ir para a pista, nossa reportagem testou o bafômetro. Apenas uma garrafa pequena, tipo long neck, já resultou em 0,18 mg/l (miligrama por litro de ar). A cautela, até aí, preponderou. Com média de 20 km/h a 30 km/h, as curvas em “S” formadas pelos cones foram facilmente percorridas.

 

Após a segunda e terceira garrafas, porém, não foi o percurso que deixou alguns cones no chão. A confiança maior ao volante deixou uma lasca em obstáculo durante a segunda tentativa. Já na terceira, com o pé embaixo, fez com que a roda traseira levantasse um dos chapéus de bruxa.

 

Uma quase barbeiragem passou “escondida” aos olhos dos policiais que assistiam e do motorista do JC, João Roberto.

 

Sem esconder a aflição nos olhos em ver o repórter alegrinho ao volante do carro em que trabalha diariamente, nem ele, tampouco os PMs, viram a quase batida num dos postes do sambódromo no momento em que o repórter manobrava para uma nova tentativa na pista. Sorte do Gol 1.6.

 

Mas foi após cerca de 1,5 litro de cerveja consumidos que a maior armadilha da combinação álcool e direção deu as caras.

 

Muito confiante, o repórter partiu para a última tentativa no “S” de cones com o pé embaixo e confiança nas nuvens. Incrivelmente, nenhum cone foi derrubado, apesar do ranger da borracha no asfalto. “Com quatro cervejas na cabeça, a última delas virada de uma vez, já fazendo gracinha na frente do pessoal, fui para o volante me achando o Ayrton Senna”, narra o repórter.

 

Contudo, um detalhe, lembra o tenente Sérgio: “Cones não atravessam a rua, tampouco fecham a frente do condutor sem dar a seta”, observa o policial, lembrando que o bafômetro não é o único instrumento.

 

Fonte: jcnet


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