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Jovens no ócio

 

Cecília Preda
Diário da Manhã

 

Pesquisa do Ipea aponta que 8,8 milhões de brasileiros entre 15 e 29 anos não estudam nem trabalham. Para especialista, realidade pode prejudicar desenvolvimento do País, bem como impedir participação desse grupo no ciclo natural da vida

Entre 2000 e 2010, aumentou em 708 mil o número de jovens brasileiros entre 15 e 29 anos que não estudaram e não trabalharam. Em 2000, eram mais de 8,1 milhões de jovens nesta situação e, em 2010, esse índice pulou para 8,8 milhões, o que representa mais de 16% da população brasileira jovem. Este aumento foi relativamente maior que o crescimento da população de 15 a 29 anos, o que resultou em um incremento também dessa proporção, para 17,2%. Os dados fazem parte do Estudo Mercado de Trabalho nº 53, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). De acordo com a técnica que participou do estudo, Solange Kanso, o fato de o jovem não trabalhar e nem estudar pode trazer implicações importantes para a Nação.

A pesquisadora explica que do ponto de vista social e econômico não frequentar a escola quando jovem prejudica o desenvolvimento do Brasil, levando em consideração que a educação é o fator fundamental para que um país cresça. Kanso ainda destaca que o que se espera dos jovens é que a saída do colégio seja seguida pela entrada no mercado de trabalho.

No entanto, quando percebe que parcela importante dos jovens não participa nem da educação formal nem do mercado de trabalho, surgem questionamentos sobre a vulnerabilidade desse grupo. “Esse dado é preocupante porque mostra que esses jovens não estão participando do ciclo natural da vida. A formatura, a busca por emprego são fases importantes na trajetória humana”, afirma Kanso.

 

mulheres

Segundo a pesquisa, o aumento de jovens que não estudam nem trabalham apresentou números diferenciados por sexo. De acordo com Solange, do total de homens jovens, 11,2% encontravam-se na condição de não estudar e não trabalhar em 2010. Entre as mulheres, o percentual foi bem mais elevado, 23,2%.

Isso mostra que, no Brasil, existe um forte componente de gênero que explica esse fenômeno. Segundo a pesquisadora, parte das mulheres jovens brasileiras está desempenhando o tradicional papel de mãe e dona de casa.

Ela explica que os técnicos constataram que cerca de dois terços das mulheres que não estudam e não trabalham eram casadas e 61,2% já tinham filhos no ano de 2010. “Para as mulheres, estado conjugal e maternidade são fatores que parecem associados à condição de não trabalhar e não estudar, o que determinaria uma transição para a vida adulta ‘diferenciada’ por sexo.”

 

Homens

Já no universo masculino, a maioria dos homens que estava fora da escola e do mercado de trabalho vivia com os pais, avós, sogros ou outros parentes, ou seja, dependiam fortemente do apoio familiar. Segundo Solange, em 2010, 62% dos homens que não estudam e não trabalham moravam com os pais. Já o percentual de jovens que moravam com sogros ou parentes foi de 15% e apenas 11,2% alegou ser chefe de domicílio.

Segundo Kanso, o estudo constatou que existem várias hipóteses que explicam o fenômeno. Alguns não procuram trabalho por desalento, outros não estudam por falta de renda e perspectivas futuras. Ainda existem aqueles que possuem uma família capaz de garantir-lhes sobrevivência básica até que eles consigam uma posição satisfatória no mercado de trabalho.

Rômulo Frugoni, de 26 anos, faz parte do grupo de jovens que atualmente não estuda e nem trabalha. Segundo ele, a falta de valorização por parte das empresas é o principal motivo para que ele não esteja trabalhando.

O jovem conta que trabalhou durante alguns meses, mas desistiu do emprego porque o salário não era compatível com o trabalho que ele exercia. “Trabalhava com vendas e tinha uma carga horária puxada, além disso, não ganhava bem. Isso me desanimou. Só irei trabalhar quando encontrar uma empresa que saiba valorizar o meu trabalho. Atualmente, estou pagando as minhas contas com o seguro-desemprego”, afirma.

Frugoni ainda explica que terminou o ensino médio, mas que não se graduou por causa da renda. “Boas universidades custam caro. A mensalidade costuma ser de R$ 600 ou mais. Infelizmente não posso arcar com um gasto desse tamanho”, afirma.

 

Renda familiar

Kanso constatou que, em geral, esses jovens são financiados pela família, no entanto, eles não estão inseridos em grupos de alta renda. “Em 2010, os jovens que não estudavam nem trabalhavam estavam inseridos em famílias cujo rendimento médio domiciliar per capita era o mais baixo dentre as famílias que tinham jovens nas outras categorias”, afirma.

Ou seja, o rendimento médio mais alto foi observado em domicílios que tinham jovens que trabalhavam e estudavam. O segundo mais baixo rendimento foi observado naqueles onde os jovens não participavam das atividades econômicas e estudavam.

Enquanto o rendimento médio das famílias que tinham jovens sem estudar era de R$ 1.621,86, a renda média dos domicílios com jovens que estudam e trabalhavam era de R$ 3.024,34. “As famílias com pelo menos um jovem que estuda e trabalha possuem rendimento 50% maior”, afirma a pesquisadora.

Solange ainda alerta para outro importante fato: a renda é um fator que influencia na decisão de estudar e trabalhar dos jovens. “Estudos mostraram que a renda dos domicílios afeta positivamente a probabilidade de estudar, principalmente sem trabalhar, e negativamente a de trabalhar sem estudar e a de não exercer nenhuma das duas atividades”, afirma.

Escolaridade

Solange destaca que escolaridade do chefe do domicílio tem sido apontada, também, como um indicador importante das condições socioeconômicas de uma família. A mais baixa escolaridade do chefe foi observada nos domicílios onde estavam os que não estudavam e não trabalhavam. “Os chefes com escolaridade mais alta são observados nos domicílios onde residiam jovens que estudavam e trabalhavam, ou seja, nos de maior renda”, ressalta a pesquisadora.

Solução

Para Solange, a melhor forma de resolver o problema é investir em políticas públicas. Segundo ela, o governo precisa realizar ações que incentivem os jovens a estudar. Além disso, a pesquisadora alega que programas devem ser criados para que pessoas com idade entre 15 e 29 anos se sintam motivados a ingressar no mercado de trabalho. “Precisamos conscientizar esses jovens de que trabalhar e estudar não é importante apenas para o desenvolvimento do País, mas também para o crescimento pessoal”, afirma Kanso.


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